Entrevista: Edmilson Martinho Volpi – ABEC-SP

Entrevista VolpiConfira agora a sétima entrevista da série onde estamos conversando com profissionais da área de Geotecnologias que atuam em diferentes regiões do Brasil e do mundo. Eles estão contando um pouco de sua história no mercado de trabalho, compartilhando sua visão sobre o cenário do Geoprocessamento onde vivem, e algo mais. Nosso entrevistado do momento é Edmilson Martinho Volpi, atual presidente da Associação Brasileira de Engenheiros Cartógrafos, de São Paulo (ABEC-SP).

Edmilson Martinho VolpiEdmilson Martinho Volpi é  Engenheiro Cartógrafo formado pela UNESP, Campus de Presidente Prudente e Mestre em Engenharia Urbana pela Universidade Federal de São Carlos. Atualmente é Especialista Ambiental na área de Planejamento Ambiental da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Também é Professor dos cursos de Pós Graduação em Geoprocessamento e Georreferenciamento de Imóveis Rurais da FEF (Fernandópolis/SP), UNILINS (Lins/SP), UNINORTE (Rio Branco/AC) e UNIGRAN (Dourados/MS). Presidente da Associação Brasileira de Engenheiros Cartógrafos – Regional São Paulo (ABEC-SP), atua na área de Geoprocessamento desde 1991, como Engenheiro, Consultor, Conferencista e Professor. +Info: http://about.me/emvolpi/

1. Há quanto tempo você trabalha com Geotecnologias e como foi seu primeiro contato com esta área tão apaixonante?Geoinformação

Eu me formei no curso de graduação em Engenharia Cartográfica, na UNESP de Presidente Prudente em 1991. Logo que me formei, fui trabalhar em uma empresa de Consultoria em Geoprocessamento do Prof. Marcos Rodrigues, da POLI-USP, e venho trabalhando, desde então, com isso. Isso para mim foi um privilégio, pois até então a tecnologia era incipiente no Brasil, e existiam poucas empresas e órgãos públicos que trabalhavam com Geoprocessamento.

Assim, creio que trabalho há 22 anos com Geotecnologias. Mas meu primeiro contato foi, com certeza, já no curso de graduação, onde pude aprender profundamente sobre todas as áreas das Geociências.

2. Você fez algum curso específico na área de Geoprocessamento? (Pode também citar onde, e se possível algumas características do curso)

Como disse na questão anterior, meu curso de Graduação já foi um curso bem específico, pois todas as áreas das geociências foram abordadas. Também, aprendi muito em meu Mestrado em Engenharia Urbana, concluído na UFSCar em 2000, onde aprendi e pesquisei sobre as aplicações de geoprocessamento no ambiente urbano.

A diferença entre os dois é que na graduação, tive a oportunidade de aprender sobre os fundamentos do Geoprocessamento, e no mestrado sobre as aplicações práticas desta tecnologia. Além disso, ao redor dos anos, venho me atualizando com cursos específicos, sejam de softwares ou de geotecnologias, de curta duração, mas de grande aprendizado.

3. Qual sua visão sobre o cenário atual das Geotecnologias no Brasil? Considera que há boas perspectivas para os profissionais?

A solução tecnológica existe desde os anos 80. Tínhamos, talvez, limitações de processamento, que hoje já não existem mais, mas principalmente limitações culturais. Os usuários não conheciam a potencialidade das aplicações e das soluções em geotecnologias. Era muito difícil encontrar empresas e usuários que investissem nas soluções geotecnológicas, mesmo porque, existiam muitos casos de ‘insucessos’ nas aplicações de geoprocessamento. Eles eram muito caros, demorados, e dificilmente eram concluídos. Hoje isso mudou bastante. Temos soluções, poderosas, em softwares livres, que podem rodar em computadores de baixo custo, mas principalmente, temos o conhecimento disseminado da tecnologia. Desde os anos 80 surgiram revistas, congressos, portais na internet específicos na área de geoprocessamento. Isso ajudou a disseminar essa tecnologia, mostrando casos de sucesso e soluções para problemas específicos.

Já a partir dos anos 2000, com a popularização da internet, surgiram listas de discussão, redes sociais, blogs, páginas na internet, tratando especificamente sobre isso. Além, obviamente, de políticas públicas e de disseminação de dados geoespaciais. Tudo isso contribui para que as Geotecnologias sejam cada vez mais reconhecidas, necessárias e promissoras em nosso País. Por isso creio que hoje existam ótimas perspectivas para os profissionais que queiram atuar nessa área.

Há uma carência, ainda grande, de profissionais qualificados em geotecnologias para atender a todo o mercado, que vem crescendo ano a ano. Quem quiser se especializar nesta área, creio que terá boas chances de sucesso. É claro que com a popularização da tecnologia, o mercado irá exigir cada vez mais profissionais com um conhecimento amplo da tecnologia, então é necessário cada vez mais capacitação na área.

4. O que você acha que seja fundamental para que um profissional consiga um bom espaço no mercado de trabalho em Geoinformação?

Conhecer os fundamentos da tecnologia e não apenas ‘operar’ um software. Tenho visto nestes 22 anos de experiência profissional, várias pessoas muito experientes em operação de vários softwares, mas que não possuem fundamentação conceitual e técnica para um processo de tomada de decisão. Pessoas que, por exemplo, conhecem operações e rotinas complexas de um Software SIG, mas não possuem capacidade para decidir qual metodologia utilizar em um problema específico. Como um exemplo bem grosseiro, mas que é muito mais comum do que imaginamos, não adianta nada se desenvolver um projeto para, por exemplo, localização de áreas possíveis para exploração de petróleo na estação brasileira na Antártida, baseada na projeção UTM, que não é indicada para altas latitudes.

Saber operar bem um software SIG não adiantará nada se o técnico não tiver esse conceito de cartografia antes de montar um projeto. Na minha vida já conheci ótimos profissionais que mal sabiam operar um software SIG, mas que tinham grande conhecimento da tecnologia, e assim podiam decidir sobre qual metodologia utilizar para a solução de um problema específico e, então, contratar um bom operador de software. É isso, acredito, que diferencia o salário de alguém que conhece bem a tecnologia de um ‘apertador de botões‘ de software SIG. É claro que se o profissional conhecer bem os fundamentos da tecnologia e também souber operar bem um software SIG, suas chances de sucesso no mercado de trabalho serão maiores.

5. Com quais softwares para Geoprocessamento você tem trabalhado, desde o início de sua carreira até hoje (comerciais e livres)?

Na primeira empresa que trabalhei tive a oportunidade de trabalhar com o IDRISI, Span Map, e Arc/Info. Eu diria que minha ‘cartilha geo’ foi o Span Map, um software canadense da TYDAC, depois comprado pela IBM, e o Arc/Info da ESRI. Com eles eu conheci os fundamentos de um software SIG. Ambos eram muito poderosos e com muitas ferramentas de análises espaciais.

Depois, fui trabalhar na Sisgraph, representante da Integraph no Brasil. Ali, pude conhecer e trabalhar com os softwares da família MGE, MicroStation e Geomedia. Essa também foi uma outra grande ‘escola’ para mim, pois são softwares bastante poderosos. Desde então, já tive oportunidade de trabalhar com o SPRING, AutoCAD Map, TransCAD, e QGIS. Mas eu trabalhei a maior parte de minha vida profissional com os sofwares da família ESRI, Integraph e Bentley.

6. Atualmente você trabalha na Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo e como Professor de cursos de Pós Graduação. Poderia comentar um pouco de como as Geotecnologias estão diretamente envolvidas com estes trabalhos?

Na Secretaria do Meio Ambiente, trabalho na área de fiscalização ambiental, como usuário de Geotecnologias, trabalhando com o software ArcGIS. Como professor de cursos de Pós Graduação, dou aulas há 12 anos. Comecei como membro do Núcleo de Geoprocessamento da UFSCar, onde fiz meu Mestrado, e que oferece o curso de Especialização em Geoprocessamento. Foi uma grande experiência, pois foi um dos primeiros cursos de especialização em geoprocessamento no Estado de São Paulo. Foi um curso construído colaborativamente por toda a equipe, e acredito que esta seja a fórmula do sucesso do curso. Aprendi muito lá, tive grandes Mestres que se tornaram grandes amigos.

Com o tempo, fui tendo a honra de ser convidado a colaborar em outros programas de Pós Graduação em Georreferenciamento de Imóveis Rurais, ministrando aulas na Unilins (Lins/SP), Uninorte (Rio Branco/AC), Unigran (Dourados/MS) e FEF (Fernandópolis/SP). Em todo esse tempo, conheci grandes professores que me ensinaram, e ensinam até hoje, a arte e a sabedoria de ministrar aulas.

7. Poderia nos falar um pouco sobre o papel da ABEC (Associação Brasileira de Engenheiros Cartógrafos), bem como das atividades que você desempenha junto a esta instituição?

ABEC-SPA ABEC-SP foi criada em 1986 na Unesp de Presidente Prudente, para defender os interesses profissionais dos Engenheiros Cartógrafos. Porém, ela foi descontinuada em meados dos anos 90. Em 2003, por conta das discussões nacionais sobre o Georreferenciamento de Imóveis Rurais, e com a criação da ABEC-RS (a única ativa até então) eu e mais um grupo de Engenheiros Cartógrafos nos reunimos para re-criar a ABEC-SP, e desde então tenho participado da sua diretoria, como Presidente e Vice-Presidente.

Atualmente sou o Presidente da ABEC-SP. A função da ABEC-SP é, primordialmente, defender os interesses profissionais dos Engenheiros Cartógrafos no estado de São Paulo, e ocasionalmente em estados onde não exista uma associação profissional de Engenheiros Cartógrafos, como no Rio Grande do Sul (ABEC-RS), Paraná (ABEC-PR) e Pernambuco (ABEC-PE).

Também atuamos divulgando a Engenharia Cartográfica junto a sociedade, apoiando eventos na área de geotecnologias, fazendo parcerias com instituições de disseminação de informações e conhecimentos em geotecnologias, e procurando divulgar a profissão do Engenheiro Cartógrafo junto a órgãos públicos na esfera federal, estadual e municipal e empresas privadas que se utilizam de tecnologias espaciais para tomada de decisões.

8. Você gostaria de fazer algum comentário adicional sobre o tema de nossa entrevista?

Parabéns pelo site e pelas entrevistas. Esta é uma iniciativa que já há muito fazia falta, para que profissionais e estudantes possam conhecer aqueles que, de alguma maneira, colaboram na disseminação das geotecnologias no Brasil. Eu sou um leitor assíduo do site, e me sinto lisonjeado pelo convite. Muito obrigado.

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Queremos agradecer ao Volopi por nos conceder esta entrevista que certamente agregou grande valor ao conteúdo publicado em nosso site, em especial nesta série de entrevistas.

O que vocês acharam desta matéria? Já conheciam o trabalho desenvolvido por este grande profissional da área de Geotecnologias? Deixem seus comentários.

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9 Comments on “Entrevista: Edmilson Martinho Volpi – ABEC-SP”

  1. bernardo Horacio fernando disse:

    Eu sou aluno deste curso e para entrar nesta página foi o meu colega que o mostrou me..obrigado pelo vosso trabalho e pelo tempo oferecido na vossa página..

  2. Excelente entrevista com um excelente profissional, divulgador da Cartografia com o respeito que esta ciência merece.

  3. Rubia Gomes Morato disse:

    Parabéns pelo trabalho na ABEC-SP.

  4. Rodrigo Affonso de Albuquerque Nobrega (Sal) disse:

    Parabéns Anderson pela iniciativa e pela qualidade das informações que você vem disponibilizando.
    O Volpi é o pulso forte da ABEC-SP, e tem sido fundamental para a integração de nossa comunidade.
    A matéria veio ao ar em um bom momento. Volpi, torço para que continue a frente da ABEC.
    Sal

    1. Rodrigo,
      Agradeço por seu comentário. O Volpi realmente tem dado grandes contribuições neste sentido para a ABEC.
      Abraço!

  5. Parabéns pela iniciativa de entrevistar um dos mais ativos e engajados engenheiros cartógrafos brasileiros, que tive a honra de ter como orientando e tenho a alegria de ter como amigo. Ed, continue sua missão e conte sempre com nosso apoio!!

    1. Dra. Arlete, agradeço por sua visita e comentário.
      Realmente o Volpi merece ter seu trabalho reconhecido.
      Forte abraço!

  6. Vanessa Cecília disse:

    Muito boa essa entrevista! É sempre importante ressaltar essa questão da qualificação de profissionais e da diferença entre esses profissionais e os “apertadores de botões” que tanto nos deparamos na atualidade.

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