Entrevista: Prof. Galera Monico – Unesp

Entrevista GNSSLeia agora a décima nona entrevista da série onde estamos conversando com profissionais da área de Geoprocessamento que atuam em diferentes regiões do Brasil e do mundo! Eles estão relatando um pouco sobre sua própria história no mercado, comentando sua visão sobre o cenário das Geotecnologias onde vivem, e algo mais. O entrevistado da vez é o professor João Francisco Galera Monico, personalidade de destaque na área de Posicionamento por Satélite.

Joao Francisco Galera MonicoO Professor Galera nasceu em Lupionópolis, PR, possui graduação em Engenharia Cartográfica pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1982), Mestrado em Ciências Geodésicas pela Universidade Federal do Paraná (1988) e Doutorado em Engenharia de Levantamentos e Geodésia Espacial – IESSG Univeristy Of Nottinhgam (1995). Foi professor Livre Docente III da Unesp até Set/13, quando iniciou na função de Pesquisador na mesma Universidade. É autor do livro Posicionamento pelo NAVSTAR-GPS, publicado em 2000 (Posicionamento pelo GNSS, na edição 2008). Atua como líder do grupo de pesquisa GEGE (Grupo de Estudo em Geodésia Espacial). Em 2009 foi identificado pela revista GPS World como um dos “50 GNSS Leaders to Watch”. Em 2011, foi um dos três indicados para concorrer ao prêmio “Personalidade da Década em Geotecnologias”, durante o MundoGeo#Connect 2011. Em 2012 recebeu o prêmio “Personalidade do ano do Setor de Geotecnologias” e em 2013, “Personalidade do ano/Universidade”, organizado pela Revista MundoGeo, durante os eventos MundoGeo#Connect. Coordenou e coordena vários projetos financiados pelas principais agências de fomentos do Brasil, além de participar em projetos financiados pela comunidade europeia. Desenvolve projetos juntos a Petrobras, Embraer e Itaipu.

1. Há quanto tempo você trabalha com Geotecnologias e como foi seu primeiro contato com esta área tão empolgante?

Inicialmente os meus cumprimentos a todos e gostaria de agradecer ao convite para essa entrevista. Bem, sou da primeira turma de Engenharia Cartográfica da UNESP de  Presidente Prudente. O curso se iniciou em Agosto de 1977. Formei-me em 1982 e desde então sigo nesta área. Fiz Mestrado na UFPR (1988), Doutorado com início em Delft na Holanda (1991) e termino em Nottignham na Inglaterra (1995), na área de Geodésia Espacial. Logo, faz um bom tempo que estou envolvido nesta área, inicialmente com posicionamento GPS e hoje com GNSS e aplicações mais abrangentes.

No Doutorado, minha pesquisa envolvia com uma rede GPS quase global, mas sempre com uma ligação forte com Ajustamento de Observações, uma disciplina fundamental na área de Engenharia Cartográfica e de Agrimensura. No meu Mestrado o foco principal foi Ajustamento também.

2. Você fez algum curso na área de Geoprocessamento? (Pode também citar onde, e se possível algumas características do curso)

Além dos cursos citados acima, fiz curso sobre o processamento de dados GPS com o software GIPSY Oasis em 1997, com um especialista da JPL/NASA. Fiz Pós Doutorado na Universidade de Nottingham, UK, reestabelecendo uma nova fase de intercâmbio entre Universidade de Nottingham e UNESP, bem como no DGFI na Alemanha. Neste último, me dediquei aos Referenciais Geodésicos, seus conceitos e realização. Trata-se também de um assunto muito importante na área de GNSS para Geodésia e Posicionamento. Nos congressos da AGU (American Geophysical Union) tenho participado dos cursos sobre atualização sobre o uso do software GIPSY-Oasis, o qual temos usado intensivamente na UNESP em Presidente Prudente.

3. Qual sua opinião sobre o cenário atual das Geotecnologias no Brasil? Considera que há boas perspectivas para os profissionais?

No meu ponto de vista encontramos num bom momento, o que reflete em várias oportunidades para os profissionais que se dedicam a essa área. Isto reflete na pós-graduação, onde a demanda tem reduzido. Hoje, poucos alunos recém-formados se aventuram em se dedicar a estudos mais profundos em termos de pós-graduação. A maioria parece prefere ir direto para o mercado. Com frequência somos consultados para indicar candidatos para várias funções em diversas empresas no Brasil. Logo, acredito que isso reflete de alguma forma que o cenário atual é bom.

Aparentemente, o número de profissionais formados com boa qualificação é menor que a demanda atual, e isto atraí profissionais de áreas afins, nem sempre com uma formação ideal para o desempenho pleno da função. Logo, a formação de recursos humanos qualificado tem que ser uma busca contínua. Um fator positivo que podemos observar atualmente é a oferta de novos cursos em Engenharia Cartográfica e de Agrimensura em várias regiões do Brasil, bem como os vários cursos de treinamento/especialização que são ofertados com frequência.

4. Seu nome é uma das maiores referências nacionais sobre publicações que abordam a temática do posicionamento por satélite. Na sua visão, o que podemos esperar em termos de avanços para esta área nos próximos anos?

Na realidade o tema posicionamento por satélite vai muito além do posicionamento propriamente dito. Como se trata de uma aplicação do GNSS que requer maior acurácia, o conhecimento dentro desta área permitiu expandir as aplicações do GNSS, indo para navegação, Meteorologia, Clima Espacial, para ficar apenas em algumas. O mercado dos produtos e serviços de navegação por satélites é avaliado hoje em 124 bilhões de Euros e deverá crescer para 224 bilhões em 2020, quando teremos 120 satélites de posicionamento em órbita (GPS, GLONASS, Galielo e Compass).

Entrevista: Galera Monico – Posicionamento pelo GNSS

Como o lançamento de novos sistemas e lançamento de satélites modernizados, os resultados que hoje são considerados bons, ficarão ainda melhores, além de surgirem várias outras possibilidades de aplicações. Posicionamento em tempo real com alta acurácia será uma rotina, sem o usuário se ater a toda infraestrutura que estará envolvida neste tipo de serviço. Na navegação aérea, os sistemas GBAS deverão tornar uma realidade no auxilio em pousos e decolagem, substituindo os tão dispendiosos ILS.

5. O que você acha que seja fundamental para que um profissional consiga um bom espaço no mercado de trabalho no campo da Geoinformação?

Bem, acho que a resposta aqui vale, de uma forma geral, para qualquer profissão. Tem que almejar uma formação básica robusta, ou seja, adquirir conhecimento dos fundamentos das disciplinas básicas e específicas de sua área, o que permitirá acompanhar a evolução em seu campo de conhecimento. Ir além de um simples apertar de botão, tão fácil em nossos dias, ou apenas saber usar determinado software.

Precisamos de profissionais que saibam conectar as várias disciplinas, realizar a transdisciplinaridade, propor novas aplicações, inovar. Estar com a curiosidade sempre aguçada e sempre com vontade e interesse em aprender mais.  Bem, e fazer o que de fato gosta irá ajudar muito!

6. Com quais softwares dos vários segmentos do Geoprocessamento você tem trabalhado, desde o início de sua carreira até hoje (comerciais e livres)?

Apesar de usarmos vários softwares de alta qualidade para processamento de dados GNSS (GIPSY Oasis, Bernese, GAMIT, TBC, LGO, Topcon Tools, etc), também gostamos de desenvolver nossos próprios softwares, muito embora nem sempre tão apresentável e com boa interface como um software comercial. O objetivo é dominar os fundamentos existentes e abrir possibilidades para inovar, indo além do que se tem na maioria dos programas computacionais.

Para nós que trabalhamos com pesquisa na Universidade, se não fizermos isto, nosso trabalho científico não terá impacto, ou o mesmo será pouco, pois ficaremos a mercê do que foi desenvolvido por outros grupos. Isto não é fácil neste mundo competitivo atual e com os grandes grupos de pesquisas existentes em nossa área, todos bastante atuantes.

Temos desenvolvido softwares para PPP, posicionamento relativo, cálculo de órbitas de satélites, PPS, DGPS, dentre outros. Vários deles ficam disponíveis na nossa página. Em termos de aplicativos, num Mestrado foi desenvolvida uma ferramenta que tem tido um uso muito abrangente no mundo. Trata-se do ISMR Query Tool. Estamos também desenvolvendo em conjunto com a EMBRAER, um sistema de PPP para ser utilizado nas aeronaves que realizam ensaios de voo. Na realidade são muitos desafios que nos tiram da zona de conforto, mas que muitas vezes geram produtos e artigos que qualifica muito a nossa universidade. Em breve deveremos colocar no ar o PPP desenvolvido num Doutorado na UNESP.

7. Atualmente você trabalha em uma das maiores universidades do Brasil. Comente um pouco de como as Geotecnologias estão diretamente envolvidas com este trabalho.

Bem, estou envolvido com o curso de Engenharia Cartográfica e Pós-graduação em Ciências Cartográficas, onde se ensina e pesquisa sobre GNSS para posicionamento, Meteorologia, Aeronomia bem como várias outras atividades, todos relacionadas com o que vem sendo chamado de Geotecnologia. Ou seja, a Geotecnologia é o que respiramos no dia a dia na Universidade, quer seja no Ensino, Pesquisa e Prestação de Serviços a Comunidade.

Um desafio que tenho pela frente e que espero realizar em breve é lançar mais uma edição do livro Posicionamento pelo GNSS, mas agora na forma de um e-book, procurando explorar todo o potencial dessa ferramenta, indo muito além de uma edição apenas digital.

8. Você gostaria de fazer algum comentário adicional sobre o tema de nossa entrevista?

Deixar um desafio para todos os estudantes de nossa área no Brasil. Ir além do que se ensina numa sala de aula. Ser curioso, lançar perguntas que possam ter respostas interessantes ou mesmo não tê-las de imediato, seguir uma metodologia científica ou tecnológica, enfim, ir além do repetir o que foi ensinado, procurar ser criativo, buscar a inovação e o desenvolvimento de novas ideias ou produtos.

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Queremos agradecer ao professor Galera por nos conceder esta entrevista que certamente agregou valor ao conteúdo de nosso site, em especial nesta série de entrevistas.

O que vocês acharam desta postagem? Já conheciam o trabalho desenvolvido por esta relevante profissional da área de Geotecnologias? Deixem seus comentários.

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10 Comentários


  1. Tive o prazer de participar de uma pesquisa científica para a Petrobras com o Professor Galera. Tal experiência foi de fundamental importância para minha formação acadêmica.
    Parabéns Anderson pela entrevista, seu site está com um nível espetacular.
    Abraços

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  2. Anderson, parabéns pela entrevista. Professor Galera é sinônimo de competência!

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  3. Conheço o Prof.João Francisco Galera Monico, desde quando comprei o livro de sua autoria “POSICIONAMENTO PELO NAVISTAR-GPS”,no ano de 2001,e apartir desta data apaxonei-me pela tecnologia GPS.Parabens ao Prof.Monico pelo excelente livro que muinto enriquesse os nossos cnhecimentos.

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  4. Ótima entrevista
    Tive o privilégio de conhecer o Prof. Galera Monico, conheço também sua competência e dedicação.
    Como é bom ter brasileiros que levam a ciência e o ensino tão a sério como ele.
    Parabéns Prof. Galera, e obrigada a todos os envolvidos.
    Deise R. Lazzarotto (formada em Eng. Cartográfica na UFPR, e professora de geociências na UFFS – Chapecó)

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