Entrevista: Esdras Andrade – Geoprocessamento para Linux

 

Entrevista: Esdras Andrade – Geoprocessamento para LinuxEsta é a segunda entrevista da série onde estamos entrevistando profissionais de Geotecnologias que atuam em várias regiões do Brasil e do mundo. Eles vão contar um pouco de sua história no mercado de trabalho, dar sua opinião pessoal sobre o cenário do Geoprocessamento onde vivem, e algo mais. Nosso entrevistado da vez é Esdras Andrade, que trabalha no Alagoas e é autor do blog Geoprocessamento para Linux.

Esdras AndradeEsdras de Lima Andrade, 35 anos, Geógrafo com especialização em Análise Ambiental e Geoprocessamento. Implementou a Divisão de Geoprocessamento do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas, no qual a gerencia desde 2007. Atua também como professor de Sensoriamento Remoto na Universidade Federal de Alagoas, integrando o Laboratório de Geoprocessamento Aplicado desta universidade. É um apaixonado por Geotecnologias e Softwares Livres. Nas horas vagas mantém o blog de geotecnologias Geoparalinux e faz parte do conselho editorial da Revista FOSSGIS Brasil.

1. Há quanto tempo você trabalha com Geotecnologias e como foi seu primeiro contato com esta área tão empolgante?

Estou no ramo há 14 anos divididos em duas etapas. A primeira, de 1998 a 2001, quando ainda era estudante de Geografia. Foi neste período que tive meu primeiro contato com as Geotecnologias. O interessante foi que os primeiros passos dados não foram utilizando qualquer software de SIG. Comecei com uma boa base de cartografia tradicional (analógica), onde fazia os mapas manualmente, seguido de digitalização (escaneamento) e posterior vetorização utilizando programas como o CorelDraw, ZonerDraw e Photoshop. Os iniciantes podem até se espantar mas, nesse passado recente havia muita dificuldade na geração/aquisição de dados.

Para se ter uma ideia, ainda alcancei os resquícios de uma época em que, para se mensurar a área de um polígono, fazia uso do papel milimetrado. Foi uma fase ímpar e devo tudo isso aos meus mentores por terem me discipulado desta forma, pois, assim, pude valorizar a cartografia como a ciência e a arte de se representar o espaço geográfico, assim como entender a lógica por trás dos mapas finais.

Depois de ter dominado toda a “linha de produção” dos mapeamentos, fui promovido a utilizar um SIG pela primeira vez em 1999. O primeiro programa que utilizei foi SAGA-UFRJ, concebido pelo Prof. Dr. Jorge Xavier da Silva e desenvolvido no Laboratório de Geoprocessamento da UFRJ. Ainda tenho profunda admiração pelo programa pois, ele faz análises sem igual.

A segunda fase, vem sendo construída desde 2002 até o presente, no qual estou iniciando a terceira fase, como professor na Universidade.

2. Você fez algum curso na área de Geoprocessamento? (Pode também citar onde, e se possível algumas características do curso)

Os cursos que fiz foram muito superficiais, com duração máxima variando de 20 a 40 horas, cada. Foram eles: ArcView; Envi e Spring. Os dois primeiros oferecidos pela Secretaria de Agricultura do Estado de Alagoas e o último, em um dos minicursos ofertados durante o Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto de 2001 (Foz do Iguaçu) e 2003 (Belo Horizonte).

3. Qual sua visão sobre o cenário atual das Geotecnologias no Brasil? Considera que há boas perspectivas para os profissionais? E no estado de Alagoas, como anda este mercado?

Vejo que a conjuntura econômica pelo qual o país se encontra tem favorecido muito o mercado de trabalho na área, não só das geotecnologias, mas das geociências como um todo. Vejo que há espaço para todos trabalharem, desde que ofereçam mais do que o esperado. E para este “mais do que o esperado” chamo de Geotecnofilia. Este termo usa o sufixo Filia porque exprime a noção de desejo, atração, afeição e simpatia. É o antônimo do sufixo Fobia. É um termo ainda sem definição, mas bem que poderia ser escrito à várias mãos. Então, parte do princípio de que o profissional tem de gostar da sua formação (seja ela qual for), gostar de geografia (pois é o objeto das geotecnologias), gostar de tecnologia (propriamente dita) e de aplicar os conhecimentos da formação com o uso das geotecnologias. Enfim, tem de ser aficionado por novidades.

Chamo a atenção das Instituições de Ensino Superior que têm de preparar o estudante para o mercado de trabalho. Tenho percebido excesso de academismo na formação desses jovens profissionais. Poucos sabem, mas o Governo Federal está exercendo uma pressão “branca” ao CONFEA e aos CREAs para abrir o nosso mercado de trabalho à mão de obra estrangeira, principalmente dos países europeus que estão em recessão. Se de fato isto vier a se tornar realidade, , a nossa área, a das Geotecnologias, será uma das primeiras, junto com as engenharias a sofrerem deslealmente com qualificação daqueles profissionais ingressos. Em relação ao mercado de trabalho em Alagoas, ainda é tímido mas posso considerá-lo melhor do que cinco anos atrás. É um mercado que se tornou emergente graças a visão e ao fomento que o Governo Estadual está imprimindo desde a criação do núcleo oficial estatal de Geoprocessamento.

4. O que você acha que seja fundamental para que um profissional consiga um bom espaço no mercado de trabalho em Geoinformação?

Conhecimento, Paixão e Inovação.

5. Com quais softwares para Geoprocessamento você tem trabalhado, desde o início de sua carreira até hoje (comerciais e livres)?

Sempre tive paixão pelo que é de uso livre. porque afinal de contas, ainda está impregnada em nosso consciente coletivo que ainda somos um país subdesenvolvido, por isso, sempre queremos usar sem pagar. Tentei utilizar softwares comerciais mas me desiludi por não conseguir executar algumas rotinas por travamento dos programas ou sistema operacional. Penso que é inadimissível um software comercial, que investe pesado no desenvolvimento dos programas e que e que ainda se cobra caro, apresentar problemas dessa natureza.

Geo para Linux

Como sou um aficcionado pelas gotecnologias, já utilizei de tudo mas hoje tenho focado nos programas livres, principalmente o QGIS, o gvSIG e o TerraView. Esses têm atendido satisfatoriamente as minhas necessidades cotidianas.

6. Atualmente você trabalha em um órgão público do estado de Alagoas. Comente um pouco de como as Geotecnologias estão diretamente envolvidas com este trabalho.

Respira-se geotecnologias 24 horas por dia. As principais atividades fazem uso de dispositivos receptores GPS, imagens de satélite, aerofotos, e, evidentemente os softwares de tratamento e processamento dos dados. Elas são aplicadas diretamente na criação e gestão de Unidades de Conservação da Natureza, mapeamento de trilhas ecológicas, gestão de licenciamentos ambientais, estudos locacionais de aterros sanitários, perícias de cunho ambiental em atendimento às necessidades judiciais, enfim na gestão do território.

7. O que você diria sobre as potencialidades do uso de softwares livres para Geoprocessamento em ambiente de produção (projetos de grande porte)?

Digo que a evolução tem se dado de forma muito rápida e sólida. Alguns anos atrás era praticamente impensável utilizá-los. Mas hoje, a realidade é completamente outra. Vide a crescente onda de uso deles por parte de instituições públicas. Exemplos não faltam.

Posso afirmar categoricamente que os softwares livres para SIG são uma excelente escolha para utilização em ambientes de produção. Penso que uma boa solução para projetos de grande porte, passa não somente na adoção de um determinado programa, mas num conjunto de escolhas que vão desde o sistema operacional, hardware das máquinas, da congruência dos dados, dos operadores, chegando por fim, na escolha do SIG propriamente dito. Tudo isto é um sistema e tem de estar harmonicamente equilibrado, resultando em agilidade, segurança e robustez dos procedimentos e dos dados.

8. Sabemos que você já por algum tempo tem procurado implantar a cultura do uso de softwares livres para Geoprocessamento na instituição onde você tem trabalhado. Que desafios você tem encontrado neste processo?

Por incrível que pareça, a aceitação é boa. Mas para isso funcionar devidamente tenho usado a estratégia de capacitar os estagiários e técnicos recém-formados que ainda não tenham vícios nos softwares comerciais. No entanto, a maior resistência se dá por parte daqueles que já foram “doutrinados” nos aplicativos proprietários. Mas não encaro isso como problema, pois no setor que gerencio, deixo as pessoas à vontade para usarem o que melhor lhe aprazem, desde que os resultados sejam coerentes e satisfatórios. Isto é uma escolha pessoal e não interfiro nas decisões alheias.

9. Você gostaria de fazer algum comentário adicional sobre o tema de nossa entrevista?

Sinto que há uma tendência de uso cada vez maior das geotecnologias livres, nem que seja para serem usadas como uma segunda ferramenta. No entanto gostaria de encorajar os acadêmicos e recém-formados a serem Geotecnófilos e a lutarem pelos interesses pessoais e coletivos, senão o mercado de trabalho os sobrepujará.


O que vocês acharam da entrevista do Esdras Andrade? Deixem seus comentários, inclusive com perguntas adicionais para nosso entrevistado.

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10 Comments on “Entrevista: Esdras Andrade – Geoprocessamento para Linux”

  1. Precisamos dar uma força ao Esdras para ele voltar a escrever…

  2. Karl Koerner disse:

    Oi Anderson, tudo bem?

    Você sabe me dizer se o blog do Esdras mudou de endereço ou algo assim? Fui entrar e parece que foi deletado..

    Obrigado!

    Karl

    1. Karl,
      Estou entrando em contato com ele para saber o que aconteceu. Assim que tiver uma posição, postarei aqui outro comentário.
      Abraço!

  3. Anderson, primeiro gostaria de parabenizá-lo pelo seu trabalho e pelo seu site. Curto muitas páginas no Facebook, muitas delas de geoprocessamento, sensoriamento remoto, etc., mas de longe o seu site é o melhor! Sempre proporcionando conhecimento e informações legais para a galera da geosfera! Para mim que estou na graduação é um contínuo aprendizado receber suas atualizações.

    Agradecido!

    E quanto a entrevista do Esdras, muito boa! Sempre bom ouvir a voz dos mais experientes na área e das suas dicas. Profissionais como ele engrandecem o setor de geo, e principalmente o da Geografia. Vou passar a me entreter mais com os programas livres de geo. Quantum GIS, GVSIG, SPRING, etc., preciso conhecê-los melhor. Acredito que esses programas vão se popularizar cada vez mais no setor público, e é importante caminharmos nessa direção também.

    Abração a todos!

    Herlan
    Geografia/UFF

  4. José Santos disse:

    Caro amigo Anderson parabéns por mais uma entrevista. O Esdras deu belíssimas respostas, demonstrando grande conhecimento. Curiosamente antes de iniciar a minha atividade no mundo do SIG também comecei por cartografia analógica, ou seja, uma excelente base para perceber a lógica de funcionamento de um mapa.

    Abraço
    José Santos

  5. Parabéns pela entrevista.
    Muito sábias as palavras do Esdras. Denota que é uma pessoa com conhecimento e, mais do que isso, que sabe transmití-lo.
    Gostei muito do termo “Geotecnófilos”, o qual, se me permite o Esdras, passarei a utilizar.
    Por fim, parabenizo também você Anderson pela qualidade do Blog e dos assuntos abordados. Sigo você no Twitter e mantenho-me sempre atualizado.

    Saudações gaúchas!

    Eng. Alexandre

  6. Olá Anderson, primeiramente parabéns pela reformulada no site, está muito bom, bonito, leve e funcional. Através do teu site que conheci o blog do Esdras e também o acompanho a um tempo, principalmente depois que optei por utilizar o sistema Linux no meu computador pessoal.

    Achei muito interessante esse proposta de realizar entrevistas com profissionais da área , além de ser uma forma de conhecermos um pouco mais da rotina deles na área das geotecnologias é um incentivo aos estudantes de geografia a seguirem em frete nessa área. Concordo com o Esdras que para os profissionais que pretendem trabalhar com Geotecnologias devem ter paixão e buscarem Conhecimento e Inovação. Parabéns pela entrevista, leitura indicada para os estudantes da área.

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