Entrevista: Antonio Machado e Silva – AMS Kepler

Entrevista AMSLeia agora a décima terceira entrevista da série onde estamos conversando com profissionais da área de Geoprocessamento que atuam em diferentes regiões do Brasil e do mundo. Estão relatando um pouco sobre sua própria história no mercado, comentando sua visão sobre o cenário das Geotecnologias onde vivem, e algo mais. Nosso entrevistado da vez é Antonio Machado e Silva, diretor da empresa AMS Kepler.

Antonio Machado e Silva – AMS KeplerAntonio Machado e Silva, D.Sc. em Sensoriamento Remoto (2007), M.Sc. em Ciências da Computação (1988) e Engenheiro Cartógrafo (1981). Diretor e Consultor Sênior da AMS Kepler Engenharia de Sistemas. Projetista Sênior da Estação Terrena de Satélites de Sensoriamento Remoto do INPE.  30 anos de experiência no mercado de geotecnologias, com passagens pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (1982 a 1989) e pelo Centro Científico da IBM Brasil (1989 a 1996).  Professor de ciências matemáticas do curso de Matemática da Universidade Salesiana de Lorena (1985-1988), de processamento digital de imagens no curso de mestrado em Engenharia Cartográfica do Instituto Militar de Engenharia (1991 a 1997) e de ciências da computação no curso de Engenharia da Computação da Universidade Santa Úrsula (1996-2001). Mais de 120 trabalhos publicados em congressos e simpósios nacionais e internacionais. Mais de 30 trabalhos publicados em revistas e periódicos nacionais e internacionais.

1. Há quanto tempo você trabalha com Geotecnologias e como foi seu primeiro contato com esta área tão empolgante?

Meu primeiro contato com Geoteconologia se deu ainda nos anos 70, no curso de Engenharia Cartográfica, no IME. Pertenci à época em que o Sensoriamento Remoto era baseado em técnicas de interpretação visual sobre imagens analógicas. Para se ter uma ideia, estas imagens eram impressas banda a banda em PB ou em composições coloridas. As cenas inteiras eram impressas na escala máxima de 1:250.000 e os quadrantes na escala máxima de 1:100.000 (impressos de 1,20 x 1,00 m2). Meu fascínio pelo Sensoriamento Remoto Orbital me levou ao INPE, logo quando me formei, onde fiz mestrado e doutorado.

2. Você fez algum curso na área de Geoprocessamento? (Pode também citar onde, e se possível algumas características do curso).

Fiz cursos de Geoprocessamento na graduação, em meu mestrado (computação aplicada a processamento digital de imagens) e doutorado (sensoriamento remoto). Além disto, participo de vários congressos e feiras, inclusive internacionais, onde me inscrevo em cursos e seminários de modo a me manter atualizado. Desta forma, fiz cursos generalistas e outros bem específicos.

Fiz um curso “Formal introduction to digital image processing”, no INPE, voltado para definições matemáticas formais relacionadas à imagem digital e às operações com estas. Um curso bem teórico, de conteúdo matemático profundo. Recomendo muito. O livro, do Prof. Gerald Banon, pode ser baixado gratuitamente.

3. Qual sua visão sobre o cenário atual das Geotecnologias no Brasil?

O maior investidor mundial de Geotecnologia ainda é o poder público. No Brasil, os municípios não fazem uso como poderiam e deveriam. Acredito que a Geotecnologia é um instrumento de inserção e de cidadania. Ainda temos muito a evoluir. Há deficiências também nas esferas estadual e federal.

No setor privado, a geotecnologia está migrando da rubrica despesa para a rubrica investimento. Isto é bastante auspicioso. Ou seja, há potencial de crescimento para as empresas. Temos profissionais sérios e competentes, e empresas capazes de responder bem a grandes desafios.

4. Como você contempla as Geotecnologias e seu mercado mundial daqui à 5 e 10 anos?

As geotecnologias estão sendo incorporadas no dia a dia das pessoas. Muitas consomem sem nem saber o que é a geotecnologia propriamente dita. Isto é positivo, pois mostra o avanço na simplificação das aplicações geoespaciais. A internet, e a Google é o melhor exemplo, tem um papel fundamental em fazer com que as geotecnologias sejam acessíveis a todos.

Daqui a 5 anos, meus netos estarão usando aplicações geoespaciais com a mesma naturalidade com que buscam seus programas favoritos nas TV’s pagas.

5. O que você acha que seja fundamental para que um profissional consiga um bom espaço no mercado de trabalho em Geoinformação?

Entrevista: Antonio Machado e Silva – AMS KeplerPara um profissional conseguir um bom lugar no mercado ele deve se formar e se especializar em algo que verdadeiramente goste. Tem que ser pró-ativo, enxergar além do que vê e buscar sempre se atualizar. Deve ter a capacidade de estar aberto a aprender sempre. Isto não é exclusividade do nosso mercado, mas é fundamental.

Os projetos de Geoprocessamento envolvem equipes multidisciplinares, algumas com viés de exatas e outras com viés de humanas.

Todos devem ter capacidade para ouvir e respeitar as mais diferentes opiniões, mesmo quando não concordem com elas. Os profissionais devem saber discordar, saber defender seu ponto de vista, mas sempre respeitando pontos de vista contrários. Quando for voto vencido, tem que se engajar e se empenhar com a mesma vontade para garantir o sucesso do projeto. Saber trabalhar em equipe é muito importante, e não é tão simples quanto parece.

6. Com quais softwares para Geoprocessamento você tem trabalhado, desde o início de sua carreira até hoje (comerciais e livres)?

Minha especialidade é em processamento digital de imagens. Comecei a carreira no INPE, e meus primeiros contatos foram com os softwares SITIM e SGI. Posteriormente, trabalhei com o SPRING. Em todos estes, dei suporte ao desenvolvimento de funções cartográficas.

Na IBM tive acesso a um dos melhores softwares de PDI, dentre os que já trabalhei: Imassist. Ele não tinha interface gráfica. Mas você podia construir funções muito facilmente por meio de linhas de comando. Era fantástico. Passei por Idrisi, Er-Mapper e atualmente uso os softwares ERDAS e ENVI, bem como os desenvolvidos pela AMS Kepler: MS3 Image Evaluation, MS3 Image Analysis e MS3 Orthorectification.

7. Você é o diretor presidente de uma das empresas privadas da área de Geoinformação mais conhecidas do Brasil. Poderia nos descrever, de forma breve, como a AMS Kepler nasceu e se desenvolveu?

Minha carreira profissional começou no INPE (7 anos) e passou pelo Centro Científico da IBM (7 anos). Quando a IBM fechou o Centro Científico, saí e montei a empresa, pois não queria passar para a área comercial. Isto foi em 1996, e no início era uma empresa de consultoria, tendo, inclusive, a IBM como cliente. No início comercial do programa CBERS, em 1997, o INPE lançou um edital internacional para desenvolvimento da estação terrena do CBERS-1. Convenci a IBM Brasil a participar da licitação.

Fui convidado também pela MDA do Canadá a auxiliá-los no processo. Tentei juntar as duas empresas, sem sucesso. No fim, uma terceira empresa venceu a licitação: Matra Systémès et Information, da França. Não foi de todo ruim, pois eles resolveram nos contratar para desenvolver 3 subsistemas. A reunião em que assinamos o contrato foi no dia seguinte da fatídica final da Copa do Mundo de 1998. Os franceses não cabiam em si. Tivemos que aturar isto, mas valeu a pena. Desenvolvemos com sucesso, sem atrasos, e com alta qualidade, os três subsistemas, seguindo normas rigorosas impostas por uma das principais empresas do segmento espacial. O INPE ganhou confiança no nosso trabalho e a licitação seguinte foi nacional. Vencemos o certame para o desenvolvimento do sistema do CBERS-2.

Entrevista: Antonio Machado e Silva – AMS Kepler

De lá para cá, desenvolvemos um sistema robusto (MS3 – Multi Satellite Station System) que comporta 13 satélites e 13 sensores. A empresa desenvolveu uma capacidade muito grande em processamento digital de imagens e sensoriamento remoto. Participamos de grupos internacionais, tais como JACIE (Joint Agency Commercial Imagery Evaluation), CEOS CalVal (Committee on Earth Observation SatellitesCalibration and Validation of Earth Observation data) e LTWG (Landsat Technical Working Group). Aliás, o MS3 processa dados dos satélites CBERS, Aqua, Terra e Landsat, incluindo os sensores MSS, TM e ETM+. Processaremos também, no futuro, o Amazonia-1. O USGS certificou os produtos Landsat gerados pelo nosso sistema. A empresa está em constante evolução e eu tenho o privilégio de contar com uma ótima equipe.

Profissionais altamente qualificados, a grande maioria com mestrado e doutorado, que desempenham com sucesso suas funções. Atualmente estamos investindo em processamento paralelo, que pode ser aplicado em diversos tipos de dados, tais como batimétricos, sísmicos, LiDAR e de escâneres 3D. Este processamento aumenta a eficiência das aplicações reduzindo o tempo de execução em dezenas de vezes.

8. O que você diria sobre as potencialidades do uso de softwares livres para Geoprocessamento?

O MS3 foi concebido sob alguns requisitos, dentre os quais fazer uso de arquitetura de hardware de baixo custo e de software livre. Há espaço para softwares comerciais, mas há também espaço para software livre, desde o sistema operacional, até a aplicação final, passando pelo banco de dados espacial. Muitos potenciais usuários não dispõem de recursos para investir em licenças de software, em desenvolvimento de soluções e em treinamento.

Não há dúvida que o uso de software livre é o mais indicado neste caso. Mas não é só nestas situações não. Há segmentos em que o software livre tem qualidade igual ou superior ao correspondente comercial. O desenvolvimento colaborativo, característica do software livre, oferece uma dinâmica que não encontra contrapartida na área comercial.

9. Você gostaria de fazer algum comentário adicional sobre o tema de nossa entrevista?

Antes de mais nada, gostaria de agradecer a oportunidade e parabenizá-lo pela iniciativa e pelo belo trabalho que você vem fazendo. Estou há mais de 30 anos na área, e vejo, cada vez mais, o conhecimento se disseminando por todos os elos da cadeia de geoprocessamento. Não há uma concentração em nichos de excelência.

Não que estes tenham deixado de existir, mas hoje existem em maior número e dividem o conhecimento com o restante da cadeia. Atualmente é comum assistir engenheiros discutindo aspectos humanistas de uma aplicação, ao mesmo tempo em que profissionais oriundos das ciências humanas discutem algoritmos de sistemas de Geoprocessamento. Esta mistura multidisciplinar é muito bem vinda e muito importante para a evolução do nosso segmento.

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Queremos agradecer ao Antonio Machado por nos conceder esta entrevista que certamente agregou valor ao conteúdo de nosso site, em especial nesta série de entrevistas.

O que vocês acharam desta postagem? Já conheciam o trabalho desenvolvido por este relevante profissional da área de Geotecnologias? Deixem seus comentários.

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7 Comments on “Entrevista: Antonio Machado e Silva – AMS Kepler”

  1. Importante e esclarecedora entrevista !
    Tenho acompanhado as apresentações do Antonio em Congressos e Seminários, e sempre tenho aprendido muito. Não apenas pelo conhecimento técnico, mas pela capacidade de contextualizar com clareza o desenvolvimento da tecnologia na área de Processamento Digital de Imagens, novos sensores orbitais e de geotecnologias.
    Como nessa entrevista, onde diz que “Não há uma concentração em nichos de excelência. Não que estes tenham deixado de existir, mas hoje existem em maior número e dividem o conhecimento com o restante da cadeia”
    Isso é verdade, acredito, e é muito bom para o mercado de trabalho e para os profissionais, pois abre portas para novas áreas de aplicação e para novas regiões geográficas de atuação.
    Parabéns pela entrevista !

  2. Juliana Cavichiolo disse:

    Muito bacana saber da trajetória dos colegas e conhecidos da área!

    Parabéns Antônio!

  3. Olá Anderson!
    Que alegria chegar no trabalho e ver sua mensagem com link para a entrevista do Antonio Machado. Ficou show! Obrigada pelo carinho e atenção.

    1. Oi Mônica, como vai?
      A entrevista do Antonio veio para certamente enriquecer o conteúdo deste site.
      Forte abraço!

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